PROJETO
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Remix narrativo
“A onipresença da nova tecnologia da informação
e da aplicação da
inteligência artificial a todas as coordenadas da vida social
produzirão estruturas de pensamento e formas de expressão
inteiramente compatíveis com os impulsos para uma nova ordem
que observamos nos esforços pós-modernos e pós-estruturalistas”
Roy Ascott
O projeto, intitulado Remix narrativo busca mapear a evolução
da narrativa a partir da mudança de paradigma do receptor, saindo
de um estado passivo para tornar-se participativo e ativo.
Ao detectarmos mudanças ocorridas nas narrativas mediadas por
computador, procuramos sugerir – a partir dos conceitos da teoria
da informação, no seu significado abrangente, ou seja, de
modo a compreender também a comunicação – novas
formas de narrativas nas quais todas as formas de comunicação
coexistem e se relacionam com as formas mais antigas, que tendem a se
adaptar.
Partindo do pressuposto que a partir do início do século
XXI, o leitor anônimo ganhou força e passou a desenvolver
e tabular suas próprias escolhas e ainda levando em conta o avanço
da Internet, consagrada como mídia de massa nestes dez anos de
existência, começamos perceber o surgimento – pelas
bordas, quase imperceptível -- de ambientes de compartilhamento
de experiências e informações como, por exemplo, os
blogs, fotologs, música on demand (MP3), Orkut, listas e fóruns
de discussão. Estamos presenciando uma revolução
silenciosa capaz de, aos poucos, gerar um falecimento da intermediação
da imprensa e questionamentos sobre a inexistência da autoria a
partir do século atual, o fim do copyright, ou melhor, a substituição
pelo copyleft . Neste cenário de liquidificador cultural, queremos
propor um ambiente multiusuário participativo de troca de narrativas,
sejam elas em formato texto (poesias, contos, folhetins, histórias
cotidianas, urbanidades), formato imagético (fotografias, ilustrações,
vídeos, recortes), formato sonoro ou formato comunitário
como listas de discussão, comunidades no Orkut, newsletters por
e-mails etc. O participante poderá alterar uma narrativa textual
existente a partir do desenrolar da trama; alterar os personagens ou mudar
de formato, ou seja, continuar o conto com inserção de uma
imagem, áudio ou vídeo. A cada bloco temático será
possível espiar, participar, modificar ou iniciar uma nova narrativa
– apropriando-se do formato existente ou escolhendo outro numa lúdica
brincadeira entre formatos multimidiáticos.
Por se apropriar de diferentes linguagens e suportes midiáticos,
as narrativas conseguem, por serem lúdicas, resgatar a oralidade
das rodas de histórias, tão presentes nas culturas de nossos
ancestrais e que, a partir da chegada da Revolução Industrial,
perdemos o hábito. Vivenciamos nos últimos dois séculos
a procura pelo desempenho individual, pela busca do lucro e de toda mais
valia presente nas sociedades ocidentais. Trocar narrativas num ambiente
multiusuário nos permite equipará-las de sentimento, de
poesia, de resgate histórico de um momento que ficou no passado,
que pode ser compartilhado ou mesmo continuado por outro usuário.
Essas narrativas garantem ao homem um mínimo de estabilidade em
relação ao pluralismo da experiência vivida; fazem
com que um ser isolado seja inserido num contexto coletivo, diminuindo
a solidão urbana.
Neste projeto iremos mapear as narrativas ficcionais, artísticas,
ou poéticas, embora não deixaremos de olhar para as narrativas
jornalísticas, principalmente para o jornalismo literário.
Vilas Boas (2003, p.24), por exemplo, afirma que as características
dos textos biográficos eram: “imersão total do repórter
no processo de captação; jornalistas eram autores e personagens
da matéria; ênfase em detalhes reveladores, não em
estatísticas ou dados enciclopédicos; descrição
do cotidiano; frases sensitivas; valorização dos detalhes
físicos e das atitudes das pessoas; estímulo ao detalhe”.
Queremos resgatar este jornalismo literário que já foi espetacular
nas mãos de Gay Talese e Trumam Capote – fiéis escudeiros
do estilo new jornalism; estilo este que fez história também
no Brasil em publicações como Realidade, Cruzeiro e Manchete,
nos anos 60. Narrativas jornalísticas serão bem vindas,
desde que incorporadas de poesia. Relatos rasos, mal apurados e restritos
ao lead não serão adequados ao ambiente participativa multiusuário
que pretendemos desenvolver, pois pretendemos gerar narrativas ligadas
à percepção, ao olhar do autor/leitor numa relação
intersubjetiva.
Procuraremos olhar para os critérios linguísticos, técnicos,
sociológicos e psicológicos da linguagem publicada no ambiente
Remix narrativo. Usando os ensinamentos de Lacan em “A ética
da psicanálise”, usaremos a definição dos três
modos de abordagem dos vazios. A arte, que se organiza em torno dele,
a religião, que consiste em evitá-lo, e a ciência,
que teima em negá-lo. O projeto se propõe, enquanto estudo
vivo, tentar se enquadrar em torno do vazio, colocando-se no tênue
espaço entre arte e jornalismo que vivemos hoje na sociedade pós-moderna.
Tentaremos, ao longo do projeto, desconstruir as narrativas, transformando-as
em uma grande árvore com ramificações múltiplas.