Capítulo 1
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A CONSTRUÇÃO DA
NOTÍCIA EM TEMPO REAL
Por
Adriana Garcia Martinez
Sabe aquela expressão “tempo é dinheiro”?
É ela que norteia todo o trabalho jornalístico das
agências de notícias, grandes corporações
planetárias encarregadas de contar aos jornalistas dos
meios de comunicação – e, com o advento da
internet, também ao mundo – quais são os fatos
noticiosos do momento.
Desde o século XIX, quando surgiram as primeiras organizações
do tipo na Europa e nos Estados Unidos, as agências estiveram
focadas em reportar notícias em tempo real. Portanto, nada
mais natural que, com o surgimento da internet comercial, na década
de 1990, elas fossem as primeiras a alimentar o meio digital,
detentor de espaço infinito e muita ânsia por conteúdo.
No Brasil, o caráter noticioso dos primeiros portais de
informação, oriundos de empresas jornalísticas,
criou leitores ávidos por informações escritas,
ansiosos para ver reproduzida na tela impressa a instantaneidade
do rádio.
Mas a tela de hipertexto carrega uma característica que
o rádio não tem, e que colocou em perigo a credibilidade
do jornalismo nessa primeira década de existência
da internet comercial: ela preserva a informação
escrita ao longo do tempo. Preserva e permite que o leitor acesse
essas informações em outros momentos – podem
ser horas, dias ou, de acordo com o sistema de arquivamento e
busca do site, até meses depois de terem ido ao ar.
No afã publicador dos primeiros anos, algumas velhas lições
da prática jornalística sofreram na busca por alimentação
constante de páginas que tinham a mesma dimensão
física dos chamados wires das agências de notícias:
um título elencado sob o outro, com o registro do horário
no qual aquele texto foi publicado. Em um primeiro momento, pode-se
pensar que essa é uma lógica clara e prática.
A matéria publicada por último é a mais recente
e, portanto, a que vale a pena ser lida primeiro. Bastava ir para
a coluna “últimas notícias” e ver, em
uma imensa tripa de títulos, todo o
noticiário do dia. Como veremos, não foi tão
simples assim.
Já na entrada dos anos 2000, portais como o iG prometiam
publicar uma notícia por minuto, criando uma espécie
de labirinto informacional não só na forma como
as matérias eram dispostas uma após a outra numa
tela de fundo branco que mais lembrava uma página de jornal,
mas que também esfacelava a técnica construtiva
da notícia. Ela não era mais publicada quando estava
pronta, seguindo as técnicas básicas de apuração
que vigoravam até então – como fazer o cruzamento
de várias fontes, ouvir o outro lado em questões
polêmicas, buscar o equilíbrio em um texto que tivesse
a pretensão de dar uma visão ampla dos fatos etc.
O que se viu foi uma ânsia publicadora tão grande
que o jornalista transformou-se praticamente em um difusor de
informação ou em um instantaneísta, como
definiu o jornalista Ignacio Ramonet, do periódico francês
Le Monde Diplomatique. Nessa forma de trabalho, cada nova fonte
que dizia algo virava um título de matéria, e assim
por diante, até que as reportagens começaram a ser
produzidas aos pedaços, ou em takes, como se fala no cinema.
Predominava a ótica difusionista de informação:
“o mais importante é informar antes”. Só
que no final do dia restavam apenas pedaços que não
eram consolidados e que não apresentavam lógica
interna entre si. Quem quisesse saber o que realmente aconteceu
naquele dia, com todas as repercussões e facetas, teria
que esperar o “Jornal Nacional” ou o jornal impresso
da próxima jornada.
As agências de notícias já tinham uma prática
para a construção da notícia em tempo real
há muitas décadas e, não por acaso, foram
elas que passaram a dominar o noticiário dos principais
portais brasileiros (UOL, iG, Terra, Yahoo! e MSN, entre outros).
Logo falaremos sobre a produção de notícias
nas agências, mas antes é necessário observar
as mudanças que aconteceram dentro das redações
digitais que começavam a se instalar no país.
MUDANÇAS NO FAZER
Uma das grandes alterações que puderam ser observadas
dentro das redações foi o modo de produção
das notícias. Quando chegou, a redação digital
parecia ter alterado a forma existente e consolidada de construção
e veiculação da notícia escrita, calcada
até há poucos anos em um modo de produção
industrial.
Nesse mundo, as funções eram bem definidas e o papel
das agências era fornecer material amplo e vasto dos fatos
mundiais para que os editores tomassem a melhor decisão
na hora de escolher o que publicar para seus leitores. O repórter
era repórter e o editor era editor. O fotógrafo
era fotógrafo e o “pauteiro” era “pauteiro”.
Eram funções claras, definidas e delimitadas por
tarefas divididas entre as partes – texto, foto e arte –
que se juntavam nas páginas com a publicidade no
final do dia em um fechamento frenético e de teor artesanal.
Com a informatização, a estrutura organizacional
das redações mudou muito a partir da década
de 1980. As constantes reestruturações e reengenharias
efetuadas nas empresas informativas ao longo da década
de 1990 no país reduziram muitos cargos, como o de copydesk
ou o de produtor gráfico, mas as etapas de produção
jornalística ainda estavam divididas em cargos bem demarcados,
como acontece até hoje nas grandes corporações.
Em menos de cinco anos de funcionamento da internet, aquela noção
de ordem e de rotina produtiva ditada pelos meios industriais
– em que o trabalho do repórter é apenas uma
etapa na cadeia de produção que termina nas rotativas
e na distribuição do produto ao leitor – foi
subvertida pelo ritmo frenético do noticiário no
ciberespaço, que passou a buscar a instantaneidade para
a mensagem jornalística escrita.
Eis que surgem as figuras do “produtor de notícias”,
do “gerente de informação” e do editor
multimídia na web: a grande diferença do novo processo
digital está no fato de que os meios de produção
foram parar totalmente na mão do jornalista – em
geral um jornalista jovem, recém-formado, com facilidade
para lidar com softwares, mas pouca experiência para tratar
da informação. Ele passa a coletar, administrar,
filtrar, editar e publicar as notícias. Todo o processo
de produção está em suas mãos, sem
nenhum filtro aparente ou editores que desempenhem o papel de
revisão e edição. Ocorre então uma
pressa que passa por desleixo, com a publicação
de dados errados ou
imprecisos e português sofrível.
Mas por que um modus operandi que funcionava há
mais de um século – o modelo produtivo das agências
– não foi imediatamente adotado pela internet? Embora
os principais portais comprassem o conteúdo de várias
dessas agências, havia, além da pressa (muitas vezes
até maior que a do ritmo de apuração dessas
grandes agências), a busca de uma exclusividade, uma customização
que vinha das redações dos próprios portais.
CONSTRUINDO A NOTÍCIA EM TEMPO REAL
Assim como o trabalho jornalístico tem suas especificidades
em diferentes meios, sejam eles televisão, rádio,
revista ou jornal, a internet também buscou sua identidade.
No entanto, nesse início de trabalho, o resultado andou
mais na direção da perda de credibilidade do que
no uso intenso de recursos provenientes de outros meios que poderiam
ajudar na construção da notícia – inclusive
do know-how das agências. Numa agência de notícias
como a inglesa Reuters, na qual se
publicam mais de seis mil títulos por dia em quase vinte
idiomas, há um método bem delimitado de produção,
assim como acontece com a norte-americana Associated Press, que
tem um manual de redação amplamente utilizado nos
Estados Unidos.
O foco das agências é divulgar as informações
com muita rapidez, mas também com precisão, já
que elas servem de fonte primária para outros veículos.
Funcionam como “atacadistas da notícia” enquanto
seus clientes se dedicam ao “varejo da informação”,
entregando o produto aos consumidores. Essa segurança se
delimita pela forma de construir o texto. Na Reuters, por exemplo,
se surge alguma informação importante ou alguma
autoridade dá uma declaração que vai “virar
notícia”, os jornalistas são instruídos
a repassar imediatamente a informação aos editores
por telefone celular, que redigem no ato uma pequena frase com
as informações relevantes.
A transmissão desse primeiro título deve ser feita
em questão de segundos pelo telefone, pois todas as outras
agências, como a Agência Estado com seu serviço
financeiro Broadcast, a americana Bloomberg ou Dow Jones, estarão
no mesmo lugar com seus repórteres divulgando a mesma informação.
Ganhar ou perder em uma situação dessas é
uma questão de segundos ou de uma fração
de segundos – imaginem quanto dinheiro se ganha ou se perde
quando o presidente do banco central norteamericano, o FED, divulga
a taxa de juros dos Estados Unidos, que afeta basicamente todos
os mercados do mundo. Um segundo é tempo suficiente para
que algum investidor aperte um botão de compra ou venda
de algum ativo e faça milhões. Um atraso nesse caso
é fatal.
Não é à toa que nas multinacionais de informação
essa rapidez não só é medida, como comparada
com a concorrência. Dela decorre a avaliação
do jornalista, de sua equipe e o desempenho de seu país
na esfera global. Em muitas dessas empresas, dela depende também
o bônus que cada jornalista irá ganhar quando houver
avaliação de resultados.
E como se faz para acertar com uma informação tão
importante quanto a taxa de juros dos Estados Unidos ou do Brasil?
A primeira regra é que a mensagem deve ser curta. Uma notícia
deve começar
com algo um pouco maior que um título, geralmente entre
oitenta e cem toques. Nela deve ser citada a fonte, para que o
leitor saiba de onde o jornalista tirou a informação
e, preferencialmente, o dado novo em comparação
a algum dado anterior, quando possível.
Um número só faz sentido quando comparado a outro.
Ou seja, tem mais valor agregado dizer que a taxa Selic aumentou
0,25 ponto percentual para 17% ao ano do que afirmar que o BC
aumentou o
juro para 17% ao ano. São detalhes assim que fazem toda
a diferença na hora de informar com rapidez. Dados econômicos
exigem pesquisa e preparação, para que o calor da
hora não faça o jornalista incorrer em erros.
Com declarações é mais difícil –
por isso, é melhor parafrasear as aspas do que tentar reproduzi-las
totalmente de memória. A regra de ouro, em todos os casos,
é nunca ir além do que se sabe, não assumir
nada para não correr o risco de editorializar a informação.
Em geral, o jornalista passa o primeiro “alerta” com
o primeiro título curto e, a partir daí, tem alguns
minutos para trabalhar com o editor nos dois primeiros parágrafos
da notícia, que deverão dizer ao
leitor o que aconteceu, respeitando o princípio da pirâmide
invertida: o quê, quem, quando, onde e por quê. Com
o tempo, o repórter também aprende que deverá
começar sempre seu lead pela informação mais
importante daquelas cinco perguntas.
Se o presidente da República deu uma declaração
importante, o “quem” é talvez o aspecto mais
relevante daquela notícia, o que vai dar autoridade ao
texto. Nesse caso, não restam dúvidas de que esse
é o começo do lead. Outras vezes, um decreto que
o presidente assinou pode ser mais importante do que a fonte.
Então, o “o quê” passa a ser o eixo principal
do seu lead. Em uma notícia policial ou numa tragédia
da natureza, o “como” pode ser aquilo que fisga o
leitor. Não há uma
regra padrão. O importante é ter treino para fazer
essa reflexãorelâmpago antes de começar a
elaborar os dois primeiros parágrafos.
Uma preparação prévia será suficiente
para que o jornalista possa responder rapidamente por tamanha
agilidade, com correção. Outra regra de ouro que
a internet subverteu é a figura do editor.
Além de muitos textos “subirem” para as telas
sem revisão alguma, direto das mãos dos repórteres,
falta o olhar de outra pessoa que amplie e explore melhor um material
às vezes rico que o repórter não consegue
sozinho catalogar, dividir e formatar.
Em agência de notícias, atualizar uma matéria
é chave, e deveria ser assim também nos portais
e sites noticiosos. O problema é que, nas agências,
quando um texto é atualizado, os clientes são avisados,
seja por lembretes no texto ou no título. Na internet,
não. O texto é modificado e basicamente a informação
que o leitor tem é o horário da atualização
e não a informação do que foi acrescentado
ao original.
Outra confusão muito comum: às vezes o ciberleitor
clica em uma notícia que acabou de acontecer e que, portanto,
tem apenas um ou dois parágrafos. Ele passa a acreditar
que aquilo é tudo, ou incorpora a maneira como o texto
foi exibido, assumindo o parcial como a totalidade do fato. Deixar
transparente o processo noticioso, informando ao leitor os próximos
passos ou capítulos de uma história que se desenrola
pode ser uma maneira, próxima aos recursos da TV, de educar
o leitor para entender o processo de construção
da mensagem jornalística. Não há vergonha
nenhuma nisso. Nesses tempos de “Big Brother” e blogs
informativos, revelar às audiências o modo produtivo
dos jornalistas tende não só a aumentar a transparência
e a credibilidade, mas também o sucesso do site.
Como dissemos, o texto tem que continuar evoluindo. E passados
dez a vinte minutos da publicação original, um jornalista
de agência deveria estar pronto para atualizar aquela primeira
chamada em um texto de quatro a seis parágrafos. É
essa a hora de “cravar” a notícia com um título
preciso, que dê ao leitor uma visão correta e ampla
do que está acontecendo. Lead e título podem mudar
ou não a partir do raciocínio jornalístico
que for feito a partir da discussão com um editor.
Chega, então, o momento de fundamentar bem o texto com
as fontes e trazer uma ou duas aspas que ratifiquem a tese do
lead, servindo como “evidência” de que aquilo
que foi escrito corresponde à verdade dos fatos –
ou, pelo menos, à versão oficial da realidade dos
fatos.
Terminada essa primeira etapa, começam as atualizações
mais trabalhadas, em que vai se tentar ouvir o outro lado, trazer
mais referências de contexto, buscar opiniões de
especialistas e agregar
outras notícias que repercutam aquela primeira para um
texto principal que terá todas as informações
relevantes sobre a notícia – o texto consolidado.
A ÁRVORE INFORMATIVA
Sempre penso em uma notícia importante como o tronco de
uma árvore. O fato está lá e continuará
assim por todo o dia. Por exemplo: se a principal notícia
do dia é a queda de um avião. Se ele caiu às
9h da manhã e o desastre se apresenta como uma grande tragédia
com vítimas, por mais atualizações e matérias
laterais que os repórteres produzam, o importante é
que haja sempre um único texto disponível com todas
as informações relevantes contando sobre o desastre
com a
aeronave ancorando a página noticiosa na internet.
É muito fácil se perder no ciberespaço com
a conseqüência de um fato, assumindo que o leitor sabe
o que aconteceu previamente. Em geral, quem sabe todos os lances
do desenrolar de um fato são os outros jornalistas, que
ficam monitorando sites e lendo notícias o tempo todo na
internet, e não o usuário que está no trabalho
e que, por exemplo, tende a ler notícias na internet antes
e depois do almoço, ou mesmo antes de sair para casa no
final da tarde.
Por isso, é importante dar notícias laterais, o
que chamo de “galhos” dessa árvore informativa
–, mas que sempre deverão estar coligados com o tronco.
Isso pode ser feito por hiperlinks, por textos consolidados e
até recursos multimídia, como áudio ou vídeo
(por exemplo: a coletiva do executivo da companhia aérea
falando sobre a possível causa do acidente). O importante
é sempre refrescar sua chamada com o acidente em si, e
atrair o leitor para todos os outros aspectos, os
“galhos”. Mas a matéria “tronco”
sempre terá que ser atualizada, inúmeras vezes ao
dia, para que o leitor que entrou a qualquer momento na internet
possa ler a chamada principal e dar-se por
satisfeito ao entender o que realmente aconteceu. No final do
dia, a matéria textual da internet deveria estar tão
ou mais completa que a do jornal do próximo dia, e escrita
de uma maneira que esteja pronta para ser transferida para o banco
de dados do site.
Na apuração, existe um “quê” de
Sherlock Holmes em todo o trabalho jornalístico. A busca
de evidências para aquilo que se quer informar é
fundamental para a credibilidade não só do repórter
diante de seu editor, como do veículo perante seu leitor.
A explicitação de fontes no texto da internet é
justamente o que pode diferenciar o trabalho do repórter
do blogueiro. Mas é fato que existe o jornalismo cidadão,
tão em voga na atualidade, com pessoas comuns passando
informações sobre grandes eventos noticiosos. O
caso mais recente desse tipo de colaboração de pessoas
não-treinadas e não-especializadas aconteceu em
2005 com as grandes ondas tsunamis que varreram a Ásia.
Grande parte da cobertura foi feita com depoimentos, vídeos
e fotos de pessoas que estavam nos locais atingidos e aos quais
os jornalistas não tiveram acesso imediatamente após
a tragédia.
Quem tem acesso à informação exclusiva ou
de melhor qualidade – bem fundamentada, com contexto histórico
– consegue construir opinião. A internet é
agora um meio acessível a todos. Trabalhar a qualidade
da informação, da checagem e o estilo do texto é
fundamental para que o trabalho jornalístico continue sendo
prestigiado na formação da opinião pública.
A POSTURA DO REPÓRTER DO TEMPO REAL
A captura de informações pelo repórter de
um site ou de uma agência de notícias é diferente
da de um repórter de televisão ou de rádio.
Esses últimos precisam da “prova” para conseguir
dar a notícia – o registro da imagem ou da voz. Os
dois primeiros também devem fazer uso do gravador, mas
nem sempre eles terão esse recurso à mão
para reproduzir uma informação, dada a urgência
pela notícia de seus meios.
O jornalista da urgência também precisa guardar essas
provas, mas muitas vezes ele terá que decidir parar de
ouvir uma entrevista coletiva, por exemplo, para “passar”
algum alerta enquanto a fonte continua revelando informações.
Agências grandes costumam mandar dois
repórteres ou mais para esse tipo de evento, quando algo
importante deve sair. Mas lugares menores não têm
esse privilégio. Ter um faro afinado para fazer um julgamento
apropriado do que é notícia e tomar a decisão
de levar a informação adiante é fundamental
para que o
repórter desse tipo de veículo seja bem-sucedido.
Na hora de uma entrevista, também é importante obter
da fonte as aspas que confirmem exatamente o fato. Para isso,
é fundamental fazer perguntas abertas, que não propiciem
respostas do tipo sim/ não. Com uma pergunta do tipo “O
sr. acredita que tal coisa...?”, você pode até
obter uma confirmação e conseguir escrever seu texto,
mas não terá suas aspas douradas. E não vale
aqui, obviamente, transformar sua pergunta em aspas só
porque a fonte respondeu
“sim” a ela.
Pesquisa prévia e planejamento são fundamentais
para que as matérias saiam bem. Ou seja: vai escrever sobre
o Carnaval carioca, rastreie o site da liga das escolas de samba
e também faça alguns telefonemas. O Google foi uma
salvação para os jornalistas – mas pode ser
uma perdição para os mais jovens. Tem gente que
sai hoje da faculdade e acha que “dar um Google” é
suficiente em termos de pesquisa. Ajuda muito, é verdade,
mas não pode ser tomado como fonte de informação.
Nem os próprios jornais podem ser tomados como fonte de
informação, porque eles erram, e muito, e muitas
notícias caducam ou ficam desatualizadas com o tempo. Por
isso, ainda
é preciso ir a campo, sim senhor, seja pelo telefone ou
na rua. Bom jornalismo ainda se faz na rua, e isso ainda não
mudou.
Ao usar a internet como fonte de pesquisa jornalística,
é preciso ter noção de que os conteúdos
ou dados de informação que circulam na rede não
representam necessariamente a liberdade do pensamento humano em
sua mais plena, democrática e livre expressão. Como
aponta o autor francês Roger Chartier, a internet como um
todo apresenta uma dominância lingüística, que
é a da língua inglesa, e, portanto, uma visão
cultural, logo de entrada.
Também é preciso ter em mente que os conteúdos
buscados, rastreados e acessados respeitam uma certa lógica
– a lógica de quem os colocou na rede. Os mecanismos
de indexação em buscadores são automáticos
e obedecem a certos comandos que podem ser
manipulados comercialmente.
Jornalista que é jornalista desconfia até da própria
sombra. Desconfia de suas crenças e seus preconceitos na
hora de escrever. Por que deixaríamos de adotar esse princípio
saudável para confiar no Google? Como apontou um artigo
do jornal The New York Times, já nos idos de 2003, havia
empresas que pagavam a sites para serem mencionadas em seus arquivos
de busca ou para entrarem em suas rotas de indexação
e aparecerem lá no alto nos mecanismos de busca.
Um dos exemplos mencionados para esse tipo de busca era a palavra
“Ford”, que trazia 16 milhões de links. Mas
o que levaria a aparecer em primeiro lugar a Ford Motor Co.? Será
que tantos consumidores assim garantiriam essa primazia? Não
sei... Outro exemplo, mais recente: Yahoo! e Google admitiram
que filtravam informações na versão chinesa
de seus sites por determinação do governo de Pequim.
É a força da grana e da política se fazendo
muito presente na rede. Toda atenção é pouca.
O PODER PUBLICADOR
Como vimos, nos primeiros anos da internet comercial no Brasil,
a qualidade das notícias sofreu grande impacto. As novas
redações dos portais, tantos as exclusivamente digitais,
como Yahoo! e Terra, quanto aquelas ligadas a organizações
jornalísticas (UOL, Globo.com, Agência Estado), passaram
por um choque geracional e outro no fazer jornalístico.
Os profissionais mais experientes que foram contratados para o
novo meio tinham anos de carreira e polpudos salários.
Eles planejavam as ações de conteúdo, mas
raramente tinham tempo de
colocar a mão na massa, ensinar os mais jovens ou dominar
as novas ferramentas multimídia. Do outro lado, quem operava
as máquinas, os softwares publicadores, os decodificadores
de vídeo e os programas de tratamento de imagens, mal tinha
saído dos bancos escolares.
Sem editores experientes, quem sofreu foi o relato da notícia,
no sentido de se elaborar uma narrativa que procura retratar um
acontecimento pela descrição e cruzamento de diversas
fontes. Assim era conhecido o processo adequado de se produzir
notícias na era industrial, mas aqui estamos falando da
era da informação, como a define Manuel Castells.
Na era do jornal, havia também uma hierarquização
espacial predeterminada em vários modelos. Ela ajudava
o jornalista, didaticamente, a hierarquizar as informações
dentro das páginas, e o
leitor a organizar a leitura na plataforma papel.
Na internet, além dos processos de apuração
terem se aproximado cada vez mais do mero difusionismo de comunicados
de fontes oficiais, e os textos raramente apresentarem mais de
uma fonte, o espaço físico dentro da página
não é mais definido cotidianamente em conjunto
com o jornalista.
Pela exigência de rapidez, webdesigners e softwares publicadores
passaram a determinar telas-padrão e formas “fechadas”
de diagramação para a publicação de
notícias – como acontece no projeto gráfico
de um jornal, que determina o número de colunas fixas em
cada página e alguns poucos tamanhos-padrão para
títulos e fotos.
Ao se transpor para o ambiente digital, a diagramação
prioriza os destaques das páginas principais de cada canal
sob responsabilidade do jornalista – e esses canais também
têm um formato padrão.
Um canal de internet equivaleria, assim, a uma editoria de jornal
(Esportes, Cultura, Mundo etc.), com a distinção
de que, na rede, há uma variedade maior de assuntos que
ganham vida própria e viram canais (Moda, Sexo, Saúde,
Trânsito etc.).
Nem todos os canais demandam atualização automática.
Alguns conseguem segurar bem sua audiência com uma boa nova
matéria ou atualização por dia – como
Saúde e Viagem, por exemplo, que funcionam como uma espécie
de revista digital. Outros, porém, trarão
a demanda da instantaneidade.
Portanto, o jornalista da internet tem o poder não só
de selecionar, editar e publicar o material que considera mais
adequado, mas pode até determinar em que ritmo isso vai
acontecer. Quando ele não está lá, à
noite ou nos finais de semana, um robô se encarrega de recolher
e publicar as notícias que chegam automaticamente nos “feeds”
das agências noticiosas e, ao mesmo tempo, pode “subir”
matérias exclusivas que foram guardadas para ir ao ar em
determinada hora.
Infelizmente, esse jornalista digital ainda não traz para
si, ao menos cotidianamente, a responsabilidade de criar caminhos
de navegação customizados nas páginas e na
ligação entre elas, para tentar explorar qual é
a melhor maneira de contar uma história em telas de hipertexto,
ligadas entre si pelos hiperlinks.
Isso ainda se dá pela falta de tempo e de investimento
em mais mão-de-obra, mas, num futuro próximo, informar
bem também passará pelo planejamento e design, pela
formatação bem pensada da “moldura”
que o browser ou navegador representa.
AMPLIANDO NOÇÕES DE ESPAÇO-TEMPO
Como aponta o filósofo francês Pierre Lévy,
o ciberespaço ampliou noções de espaço
e tempo e, conseqüentemente, implodiu os limites que norteavam
a produção do texto jornalístico –
aquele espaço físico do jornal delimitado pela materialidade
do papel e a periodicidade
ritmada imposta pelo horário de fechamento.
Um jornal tem hora específica diária para terminar
seu ciclo produtivo, ou “fechar”, e ir para a gráfica.
É a etapa final e mais mecanizada de um processo eminentemente
industrial (ou seja, cada
parte é independente e a junção das partes
com interferência da máquina é que resulta
no produto).
Na web, várias dessas funções e máquinas
são condensadas numa só figura – o jornalista
digital, que acumula todo o processo com um computador na mão
e algumas idéias na cabeça.
O tempo da produção industrial é o tempo
das rotativas, determinado pelas máquinas, enquanto o fazer
é dividido entre repórteres, redatores, editores,
fotógrafos, artistas gráficos e diagramadores (função
assumida por muitos editores e editoresassistentes na década
de 1990).
Na internet, não é a máquina que determina
o tempo em que o texto noticioso é publicado. As ferramentas
automáticas permitem a publicação sem filtros
de nenhum tipo (e muitas vezes sem corretor ortográfico...).
O tempo de fechamento, então, se comprime para o tempo
em que ocorre a notícia e os minutos dispensados para sua
redação. Quem determina quando ela será visualizada
e consumida pela audiência também é o repórter
ou produtor de notícias.
O fenômeno da concentração de tarefas na mão
de uma só pessoa é, de certa forma, fruto da expansão
das tecnologias de telecomunicação a partir dos
anos 1970, afirma Castells. Esse fenômeno se relaciona com
os processos de automatização e de execução
de tarefas mediadas por computador que se cristalizam na vida
dos escritórios do planeta nos anos 1990.
Para Castells, a emergência do modo de produção
nessa etapa do capitalismo marcaria o surgimento da chamada “sociedade
da informação”, que tem nas redes uma de suas
formas mais elaboradas de articulação.
Esse mecanismo é tão poderoso que até o modo
de produção industrial esfacelou-se pelo globo,
com grandes multinacionais mandando sua produção
para países como a China e mantendo seu
comando, administração e estratégias de marketing
nos grandes centros do primeiro mundo.
Vivemos uma nova era, liderada por uma revolução
informacional.
Uma era “pós-industrial”, na qual os principais
ativos de um mercado financeiro que atua em tempo real 24 horas
por dia são a informação e a velocidade com
que ela se propaga.
Se as duas primeiras revoluções foram baseadas na
energia (a do vapor e da eletricidade), a terceira é baseada
na informação. Ela passa a ser a mola propulsora
da sociedade, a forma de organização e planejamento
de toda a atividade produtiva.
O que vimos brevemente neste capítulo é, de certa
forma, como esse processo todo afetou a vida e o trabalho dos
jornalistas que se aventuraram pelo meio digital. Muito foi feito,
mas ainda há muito
mais por fazer se quisermos capturar e manter as audiências
ligadas ao relato jornalístico.
ALGUNS CAMINHOS
O norte-americano Jonathan Dube é um dos ciberjornalistas
mais conhecidos da internet. No início do novo milênio,
ele agregou algumas dicas que podem ser úteis para quem
pensa o texto em tempo real e o caminho do texto na internet.
A seguir, apresento um resumo de tópicos que pode ser útil
na tomada de decisão para quem se aventurar pelo fascinante
mundo das notícias na internet.
• Local/global – verificar se o texto que se está
escrevendo vai ser entendido bem por uma audiência local,
nacional e internacional.
Isso pode direcionar o tipo de escrita e a profundidade do contexto
expostos em cada página.
• Planejamento – antes de escrever, pensar na melhor
forma de contar aquela história, veja se é possível
agregar áudio, vídeo, gráficos, textos, links
etc. Dar feedback sobre a apuração pode
agilizar o processo entre jornalistas e webdesigners para avançar
rápido na produção de um material diferenciado
e aprofundar a abordagem da cobertura.
• Texto – o texto pode ficar entre o impresso e o
televisivo, sendo mais literal e escrito na voz ativa, nunca na
passiva. Outras velhas máximas do jornalismo permanecem,
como concisão, uso
de verbos de ação e substantivos, em vez de adjetivos.
Também é preciso lembrar que, em geral, o usuário
de portais aceita o uso do humor (e nunca do desleixo) bem mais
do que em outras
plataformas ou veículos.
• Contexto – jornalistas são provavelmente
os únicos que “surfam” o dia inteiro na internet.
O leitor quer saber não só o que aconteceu, mas
também o que isso significa. Fazer isso sem darlhe
o trabalho de clicar em um monte de matérias também
é dever do jornalista que opera com o jornalismo on-line.
• Lead – não esconder o lead, evitar nariz
de cera (aquela abertura floreada típica de artigos de
revistas). O internauta tende a apreciar textos que vão
direto ao ponto. O primeiro parágrafo
tem que explicar o suficiente para fisgar a audiência para
o resto da matéria.
• Empilhamento – nada de ficar juntando títulos
que só confundem o leitor, fragmentando relatos da mesma
notícia. O leitor adora receber informações
picadas durante o desenrolar de um evento (p. ex.: uma votação,
um jogo de futebol), mas esse conteúdo deve ser publicado
numa interface que deixe claro ao leitor que ele está lendo
só pequenos drops informativos, e não matérias
inteiras. Um quadro “Informações minuto a
minuto” pode resolver bem o problema e diferenciar esse
conteúdo do
índice de notícias. O mesmo poderia ser feito para
conteúdo opinativo. Os blogs já funcionam como um
diferenciador/ espacial. Essa ferramenta começou a ser
adotada em profusão em 2005, com a crise política
que atingiu o governo do PT, com os blogs políticos.
• Subtítulos – usar e abusar de subtítulos
e marcadores de texto, lançar mão de tudo aquilo
que ajuda o usuário a escanear informação.
Blocos de, no máximo, vinte linhas com intertítulos
são uma boa medida.
• Checagem – o jornalismo on-line não eliminou
os fundamentos do jornalismo escrito. Fatos ainda devem ser checados
mais de uma vez, a escrita ainda tem que ser clara e fluida, as
matérias
devem incluir contexto e, obviamente, as práticas éticas
que norteiam a profissão devem ser seguidas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e
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