Capítulo 1
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Diário de bordo
UMA RELAÇÃO ORGÂNICA COM A REDE
Depois de anos de trabalho e estudo para concluir uma dissertação
de mestrado na USP, de idas e vindas para chegar à correta cronologia
da Web (apesar de me sentir sempre atrasada porque na Internet
tudo acontece muito rápido - cada ano vale por sete), resolvi,
apoiada em 14 anos como jornalista especializada em tecnologia,
fazer um relato solto, quase literário, da minha vivência de Internet.
Afinal, o que estamos presenciando é o nascimento de uma
cultura de massa, vitaminada pelo surgimento da World Wide Web
(ver Glossário) - que trouxe, para jornalistas como eu, a inquietação
e o deslumbramento de uma criança diante do tão esperado brinquedo.
Gastei noites e noites com as possibilidades de colocar imagens,
links coloridos e condicionar a informação em hierarquias multimídia.
Para alguém que trabalhou com um microcomputador pessoal
movido ao sistema operacional DOS e desde 1990 achava muito intrigante
e fascinante trocar conhecimento e informação nas telas em fósforo
verde dos BBS (Bulletin Board System) brasileiros, ser apresentada,
em 1995, ao ambiente gráfico da Internet foi o máximo. Eu, que
desde os 18 anos me acostumei a ler Marx, Kant, Maquiavel e achar
respostas para as minhas inquietações semióticas nos sociólogos
Marcuse e Baudrillard, vi na difusão da Internet - uma rede sem
chefes ou governos, uma teia viva e sem censura - a grande saída
para o mundo pós-guerra fria.
Teríamos uma sociedade mais justa, sem fronteiras sociais
ou geográficas. A informação poderia ser propagada livremente.
Acreditei que, com pouco investimento do governo, muito menos
do que se gasta em campanhas políticas, o microcomputador chegaria
aos lares, ao correio, às escolas públicas e às favelas, como
ocorreu com o advento da TV nos anos 50. E, para uma rápida aceitação
de mercado, teria um preço subsidiado para que todos obtivessem
acesso à Internet e às bibliotecas de informação disponíveis gratuitamente
na rede.
Foram 14 anos em que lutei - ainda que tardiamente, já que
não tive o prazer de viver os loucos anos 60 e realmente brigar
pela democracia - por um Brasil mais justo. Acreditei romanticamente
no jornalismo, mas hoje percebo, como muitos amigos da minha geração,
filhos dos anos 80, que viram a ascendência do rock nacional,
participaram da passeata pelas Diretas Já, foram aos primeiros
shows dos Paralamas do Sucesso e se agarraram à tecnologia como
uma aposta de vida, que chegamos a um dilema: o que vai ser da
informação sem fronteiras neste novo milênio?
Os pensadores do ciberespaço adotaram, de 2001 em diante,
uma visão conservadora da Internet. Não assumiram que a grande
rede fracassou, mas também não fazem mais profecias grandiosas.
Alguns sumiram da mídia e outros se limitam a dizer que passou
a euforia e de agora em diante os produtos de qualidade irão prosperar.
Eu digo que, para mim, ela fracassou sim, pois acreditei, como
Nicholas Negroponte acreditou em 1995 ao escrever A vida digital,
que "em 2000 haverá mais gente se divertindo na Internet do que
assistindo àquilo que hoje chamamos de redes de televisão (...)
A comunidade de usuários da Internet vai ocupar o centro da vida
cotidiana. Sua demografia vai ficar cada vez mais parecida com
a do próprio mundo".
Acreditei no surgimento de cidades virtuais; achei que era
possível comprar roupa, escolher o roteiro das férias, estudar,
enfim, respirar a teia 24 horas por dia. Sei que ainda posso fazer
muitas coisas pela Internet. Mas, convenhamos: quantos de nós,
jornalistas, não voltamos para o banco das universidades para
aprender como fazer um business plan? Quantos de nós não nos reunimos
com os amigos para colocar no papel uma idéia brilhante que faria
todo mundo trabalhar em casa, sem chefe e ainda ganhar muito dinheiro
e ver seu site presente na Nasdaq?
Tudo bem, eu sei que a rede mundial não vai acabar, que um
jornalista hoje sem a Internet não é ninguém, que as novas gerações
de profissionais que saem das faculdades de comunicação não sabem
mais usar o telefone para encontrar um entrevistado, que tudo
é pesquisado e procurado digitando www. Sei de tudo isso, mas
a vida digital de verdade ainda não chegou.
Nós, que vivemos a febre do chat (ver Glossário) - noites
em claro conversando com amigos distantes -, o deslumbramento
total com a possibilidade de escrever, editar e ver no ar sua
matéria em questão de segundos, ficamos boquiabertos com o surgimento
de páginas coloridas na Web, como também achamos maravilhosa a
nova interface do Windows 95, que trazia a opção de janelas -
a coisa mais moderna da época. É engraçado relatar tudo isso,
porque a grande maioria dos brasileiros entrou na Internet apenas
em 1999. Essa geração "fresquinha" de mundo digital nunca vai
saber o que eram as listas de discussão dos BBS nem percebe que
no teclado do PC existem muitos comandos de DOS.
Eu, que comecei escrevendo sobre culinária na extinta revista
Gourmet (cuja redação dividia espaço físico com a Dados e idéias,
ambas publicadas pela Gazeta mercantil) e em seis meses estava
mergulhada na redação do também extinto tablóide Datanews, percebo
como a tecnologia definiu minha vida adulta, como fui apaixonada
e, às vezes, enlouquecida pelos bits e bytes. Para entender o
que existia por trás da Internet gráfica fui aprender HTML (ver
Glossário). Por curiosidade, imprimia todos os códigos-fontes
das páginas que acessava para ver como os programadores faziam
os links, como alinhavam o título à esquerda, inseriam uma tabela,
davam espaço entre um texto e outro etc. Não era uma linguagem
difícil - até eu, jornalista, consegui aprender e comecei a construir
páginas no bloco de notas do Windows.
Em 1994, consegui meu primeiro endereço eletrônico com amigos
que trabalhavam na Escola do Futuro, na USP. No ano seguinte,
eu e um sócio montamos a primeira incubadora de sites do mercado
brasileiro, a Polipress. Na época, chamávamos de agência de notícias.
Precoce, eu sei, por isso o empreendimento acabou não dando certo
financeiramente. Se tivesse sido aberto cinco anos depois, possivelmente
eu teria ficado rica.
Mas aprendi muito. Passava madrugadas digitalizando e reduzindo
as imagens no software Photoshop, da Adobe - tudo na mão, pixel
por pixel, brilho por brilho. Hoje, quando vejo o que faz um Photoshop,
que salva automaticamente em formato JPG e reduz drasticamente
o tamanho da imagem, dá vontade de chorar. Foram muitas noites
comendo pizza embrulhada em papel da impressora para construir
uma página com pouco peso e agradável esteticamente. Nessa época,
meu hobby era cultivar o melhor bookmark de endereços gráficos
da Web; cheguei a ter mais de quinhentos links. No final da década
de 1990, revistas como a .net - a mais organizada revista de Internet
que o Brasil já teve - traziam reportagens e matérias sobre o
mundo virtual. Os passeios eram enriquecedores; tudo podia ser
encontrado na Internet.
Quando meu projeto de empresária da Internet fracassou, voltei
para a redação e novamente escrevi para revistas e jornais, sempre
sobre tecnologia. Nessa época eu sentia uma enorme saudade do
Hotdog, meu editor preferido de HTML, e das noites recortando
imagens e escrevendo textos para colocar nos sites dos clientes.
Com o jornal eu pagava as minhas contas, mas na Polipress eu podia
sonhar. Era o máximo ter um portfólio acessível na rede.
Morei nos Estados Unidos em 1997 e pude perceber a diferença
social de ter nascido no Terceiro Mundo. A Internet não era mais
bonita porque feita por norte-americanos, mas era mais rápida.
Com todas as casas cabeadas, não havia o problema da conexão.
Meu filho de seis anos freqüentava o pré-primário de uma escola
pública com um micro conectado à Internet para cada aluno. E nós,
brasileiros, ainda tínhamos um fosso social enorme para resolver
antes de desfrutar do conhecimento oferecido na grande rede.
O ano de 1998 foi um marco para mim. Fui chamada para editar
o site da revista Época e tive o prazer de, com uma equipe mínima,
aprender na prática como se faz um site de revista vitorioso.
Fomos a primeira revista semanal a colocar a página na Internet
com noticiário diário e a fazer o crossover de mídias, com a matéria
de capa "Leia e Ouça", em 21 de novembro.
No final dos anos 90 eu acreditava que a informação disponível
na área World Wide Web da Internet poderia derrubar a audiência
da televisão e a circulação dos jornais, modificando a própria
concepção da notícia, já que podemos ler reportagens tanto no
papel quanto na tela do micro ou da TV, graças à versão digital
dos jornais e revistas.
O ano de 2000 nasceu com uma efervescência de criatividade.
Quantas tardes não passei planejando um mundo sem fronteiras,
com meu amado amigo David Drew Zingg... Ele dizia que eu e mais
duas amigas éramos "the girls from Brazil" e que ele veria os
nossos nomes em matéria do The New York times. Fico imaginando
que, como eu, David também estaria triste - se ainda estivesse
conosco - e achando que a nova era não chegou como deveria.
O ano da Internet grátis no Brasil também me pegou. Fui chamada
para ser diretora de portal e cuidar de todo o conteúdo (ver Glossário)
gerado e exposto na home page do iG. De lambuja ganhei o iG Serviços,
o primeiro portal de serviços da Internet brasileira, e o iG Papo,
com sua jornada de dez convidados diários, sete dias por semana.
Nunca aprendi tanto sobre jornalismo on-line, hierarquias e investidores.
Devo ao iG a mudança de 180 graus na minha vida profissional e
a escolha do tema "portal" como objeto de estudo e pesquisas acadêmicas.
Respirei, dormi e acordei com esta palavra na cabeça enquanto
estive no iG. Hoje percebo como a prática cotidiana é fundamental
na vida de qualquer jornalista. Por mais que a academia forneça
o alicerce teórico, é no sufoco do fechamento que nós, jornalistas,
aprendemos como fazer jornalismo.
E garanto que o sufoco on-line é muito maior do que o da
mídia tradicional - TV, jornais, revistas e rádio. Várias vezes
ao dia começamos uma pauta do zero e também concluímos histórias
inteiras em intervalos de horas ou mesmo minutos. Você percebe
que está imerso no mundo virtual quando, ao dirigir seu carro
em direção ao supermercado, ouve pelo rádio a notícia de um acidente
com um avião na pista do aeroporto, pára o carro, liga do celular
para o plantonista da redação, dita a notícia que anotou naquele
bloquinho sempre à mão, indica uma visita aos sites de trânsito
para verificar se a área foi isolada, pede para pôr a nota no
alto da tela, olhar a concorrência e preparar uns hipertextos
sobre acidentes aéreos com o resumo dos mais graves nos últimos
anos. Aproveita e solicita ao designer, que domina a tecnologia
Flash (ver Glossário), para criar um infográfico animado explicando
o que aconteceu. E avisa que, se o assunto crescer, é só ligar
que você vai correndo para a redação.
Imagine esse tipo de situação todos os dias. Você jamais
se desliga do trabalho, mesmo quando está passeando no parque
em pleno domingo. É um estado de alerta permanente. É viver "antenado"
com tudo, seja dentro do ônibus de retorno para casa ou mesmo
no chopp com os amigos no sábado à noite. Isso é ser repórter
Web.
PEQUENA HISTÓRIA DA INTERNET
Para entender a evolução do jornalismo na Internet e todas as
suas particularidades é preciso voltar no tempo e compreender
a história da Internet e a criação de seu ambiente gráfico World
Wide Web, um dos fatores propulsores do desenvolvimento da rede,
que chegou a 2003 com mais de duzentos milhões de usuários espalhados
pelo mundo. Só no Brasil, segundo estudo do Yankee Group, serão
42,3 milhões de usuários de Internet em 2006, quase o triplo do
número existente no final de 2001. Batizado de "The second wave:
the Brazilian Internet user forecast", o estudo conclui que a
segunda onda de usuários de Internet será composta principalmente
por usuários das camadas B e C.
A Internet foi concebida em 1969, quando o Advanced Research
Projects Agency (Arpa - Agência de Pesquisa e Projetos Avançados),
uma organização do Departamento de Defesa norte-americano focada
na pesquisa de informações para o serviço militar, criou a Arpanet,
rede nacional de computadores, que servia para garantir comunicação
emergencial caso os Estados Unidos fossem atacados por outro país
- principalmente a União Soviética.
Depois de inúmeros testes de conexão entre estados distantes
como Dallas e Washington, a Agência de Comunicações e Defesa ganhou,
em 1975, o controle da Arpanet. A missão da agência era facilitar
a comunicação com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
O tráfico de dados cresceu rapidamente e, entre os novos usuários,
havia pesquisadores universitários com trabalhos na área de segurança
e defesa. Embora a comunidade acadêmica usasse a rede para transferir
arquivos extensos por meio de e-mails, o foco da Arpanet era o
serviço de informação militar. Novas redes começaram a surgir,
como a Bitnet (Because It's Time Network) e a CSNET (Computer
Science Network - Rede de Ciência da Computação), que passaram
a oferecer acesso para outras universidades e organizações de
pesquisa dentro do país.
Em 1986, a National Science Foundation (NSF - Fundação Nacional
de Ciência) fez uma significativa contribuição para a expansão
da Internet, quando desenvolveu uma rede que conectava pesquisadores
de todo o país por meio de grandes centros de informática e computadores.
Foi chamada de NSFNET.
Essas redes trafegavam, em seu backbone (ver Glossário),
dados via computadores, voz (telefonia convencional), fibras ópticas,
microondas e links de satélites. Batizadas de superhighways (ver
Glossário), essas redes conversavam entre si e ofereciam serviços
ao governo, à rede acadêmica e aos usuários. A NSFNET continuou
se expandindo e, no começo da década de 1990, eram mais de oitenta
países interligados.
O cenário do final dos anos 80 era este: muitos computadores
conectados, mas principalmente computadores acadêmicos instalados
em laboratórios e centros de pesquisa. A Internet não tinha a
cara amigável que todos conhecem hoje. Era uma interface simples
e muito parecida com os menus dos BBS. Mas, enquanto o número
de universidades e investimentos aumentava em progressão geométrica,
tanto na capacidade dos hardwares como dos softwares usados nas
grandes redes de computadores, outro núcleo de pesquisadores,
até bem modesto, criava silenciosamente a World Wide Web (Rede
de Abrangência Mundial), baseada em hipertexto e sistemas de recursos
para a Internet.
Em 1980, Tim Berners Lee, o inventor da World Wide Web (WWW),
escreveu o Enquire, programa que organizava informações, inclusive
as que continham links. Trabalhou durante anos na criação de uma
versão demo do programa e somente em 1989 propôs a WWW. No ano
seguinte, teve a colaboração de Robert Cailliau, que estava apresentando
o sistema de hipertexto CERN e trabalhando no browser (ver Glossário)
Samba.
Em 1992, o designer e pesquisador Jean François Groff convidou
Lee para ser o primeiro aluno do projeto InfoDesign, que implementou
significativas inovações de design, arquitetura e protocolos.
Groff teve importante contribuição na versão original da WWW,
além de ter trabalhado para a nova configuração gráfica que a
Internet estava adquirindo. Ainda em 1992, o Software Development
Group (Grupo de Desenvolvimento de Softwares) do National Center
for Supercomputer Applications (NCSA - Centro Nacional de Aplicações
para Supercomputadores) criou o College, grupo que reunia pesquisadores
e experts ansiosos para explorar as possibilidades da World Wide
Web.
Rapidamente o grupo encontrou um grande entusiasta, Marc
Andreessen, que participava de uma lista de discussão com vários
pesquisadores, entre eles justamente Tim Berners Lee, o inventor
da Web. Lee estava interessado no Unix e em outras versões de
Web browsers. E Andreessen trabalhava, no final de 1992, como
programador do núcleo de Eric Bina, veterano estudioso de Unix
nos meios acadêmicos norte-americanos.
O Mosaic, criado por Andreessen, foi o primeiro browser pré-Netscape.
Em 1993, era a interface essencial para o ambiente gráfico: estável,
fácil de instalar e de trabalhar com imagens simples em formato
gráfico bitmap (ver Glossário). Os sites tinham quase sempre fundo
cinza, imagens pequenas e poucos links, mas, para visionários
como Lee e Andreessen, vivíamos o início da Internet que conhecemos
hoje. O crescimento da WWW foi rápido e não parou desde então.
Em 1996, já existiam 56 milhões de usuários no mundo. Naquele
mesmo ano, 95 bilhões de mensagens eletrônicas foram enviadas
nos Estados Unidos, em comparação às 83 bilhões de cartas convencionais
postadas nos correios, segundo dados da Computer Industry Almanac.
Para dar uma dimensão do crescimento da Internet, o número de
computadores conectados ao redor do mundo pulou de 1,7 milhão
em 1993 para vinte milhões em 1997.
Os sites de busca também se interessaram em aprimorar o ambiente
gráfico e começaram a pesquisar, junto com a academia, melhores
interfaces para suas páginas. O termo "portal", com o significado
de "porta de entrada", começou a ser usado em 1997. Nesse ano,
sites como o Yahoo! - criado em 1994 a partir de duas cabeças
geniais, David Filo e Jerry Yang, ambos oriundos do curso de engenharia
elétrica da Universidade de Stanford, na Califórnia - agregaram
conteúdo e stick applications (ver Glossário) à página de entrada,
visualizada pela maioria dos usuários pelo browser Netscape.
Outros sites de busca passaram a adicionar recursos para
manter os usuários em suas páginas, em vez de encaminhá-los para
a dispersão da grande rede. Para prender a atenção de internautas
ávidos por informação, começaram a preencher o espaço disponível
com serviços, chats e muitos outros petiscos.
INFORMAÇÃO E JORNALISMO: UMA RELAÇÃO ESTRATÉGICA
Esta pergunta sempre mexe comigo: será que o leitor digital adquire
um conhecimento? Digamos que sim. Mas em que consiste esse conhecimento?
Não é um conhecimento real ou adquirido por processo de reflexão;
também não consiste na possibilidade de ter qualquer tipo de influência
sobre os fatos observados. Resolvi chamá-lo de pseudoconhecimento,
absorvido sem qualquer participação efetiva. Vamos esquecer aqui
as pesquisas de opinião, que têm sido o único recurso "interativo"
nos portais capaz de medir a satisfação do leitor - o que ainda
é, convenhamos, muito primário, já que participação do leitor
pode ser muito mais ampla do que uma simples resposta on-line
para uma pergunta elaborada com base em um assunto importante
da semana, presente nos noticiários de TV, programas de auditório,
jornais e revistas semanais.
A partir de 2001, o conteúdo jornalístico nos portais foi
gradualmente reduzido até o ponto de ser fornecido por um grupo
restrito de fontes - as mesmas agências de notícias, a mesma empresa
de previsão do tempo, a mesma coletiva para o lançamento de um
filme, o mesmo programa de TV que se ramifica em subprodutos,
dando origem a sites de fofoca, decoração, culinária etc. Com
isso, os leitores recebem e absorvem a mesma fonte de informação.
O que muda é o "empacotamento" da notícia, embora até mesmo os
projetos gráficos sejam parecidos uns com os outros.
Como grandes shopping centers, os sites oferecem diversão,
lazer e uma infinidade de serviços. Se fizermos uma analogia com
a organização dos corredores dos shoppings, iremos perceber que
os portais também estão divididos em âncoras e canais, como nos
grandes centros comerciais onde existem as praças de alimentação,
as redes varejistas, as alamedas de serviços com sapataria, chaveiro,
lavanderia e as lojas genéricas. O consumidor vai ao cinema, faz
um lanche e durante o passeio pelos corredores acaba consumindo
algo mais.
Os leitores digitais se comportam de maneira parecida: dão
uma olhada nas manchetes, lêem o horóscopo, entram em alguma área
que chamou a atenção na home page e assim sucessivamente. A informação
é absorvida sem grande comprometimento com a realidade. A importância
e repercussão de uma manchete da revista Veja continua sendo bem
maior que a do seu portal preferido.
Percebo, pela prática diária, que as primeiras páginas dos
portais brasileiros mudam pouco, verdadeiros filigranas como,
por exemplo, colocar texto em negrito ou editar a foto da manchete
sob um ângulo inusitado. Não mexem nas cores, nas colunas, na
tipologia, no fundo da tela. O que prevalece é a quantidade de
informação veiculada. O Terra, por exemplo, ganhou notoriedade
em 2001, principalmente durante os atentados terroristas de 11
de setembro aos Estados Unidos, quando colocou na rede um noticiário
que continha boas informações e era reabastecido minuto a minuto.
Não foi preciso mudar a home page para chamar a atenção dos leitores.
A fórmula adotada foi veicular mais de trezentos notícias relevantes
entre os dias 11 e 12 de setembro de 2001.
O grande problema é que, degradado em "informação", o conhecimento
não deu sinais de ser economicamente rentável e estimulante. O
colapso da Nova Economia faz sentido, portanto. Diferentemente
de bens materiais e serviços prestados, a informação on-line não
é reproduzível em geração de valor como objeto econômico.
O cenário em que a Internet era novidade - e havia guias
práticos com milhares de links e dicas para os marinheiros de
primeira viagem dispostos a navegar sem destino - tornou-se rapidamente
ultrapassado. Os internautas são a elite de cada nação e todo
o tráfego dos portais é realimentado pelas classes A e B, pessoas
com poder aquisitivo para ter um microcomputador, um carro e um
celular, e que dedicam o maior tempo na rede a não mais que meia
dúzia de endereços.
Para o pensador francês Pierre Lévy, o ser humano é preguiçoso
e gosta de ter acesso fácil a tudo o que precisa. No livro Cibercultura,
ele expõe dois tipos de navegantes na Internet: os que procuram
uma informação específica e os que navegam interessados vagamente
por um assunto, mas prontos a desviar a qualquer instante para
links mais interessantes - sendo estes últimos chamados por ele
de navegantes "de pilhagem", o que me faz chegar à conclusão de
que esta é a navegação típica dos leitores dos portais.
Como satisfazer um leitor que pratica uma navegação de "pilhagem",
que no clique seguinte pode transferir a audiência para outro
site? Por ser bombardeado diariamente por uma quantidade avassaladora
de informações, o internauta não se sente fiel a qualquer veículo
digital, nem mesmo ao portal do provedor de acesso que ele assina.
No caso dos jornais impressos, ocorre o inverso. A fidelidade
do leitor é visível. Quem se habituou à linha editorial mais conservadora
de O Estado de S. Paulo dificilmente torna-se leitor do Diário
de S. Paulo, ex-Diário popular. Na Internet, contudo, a viagem
é lúdica e o apelo visual e textual falam mais alto. Logo, nos
deparamos aqui com uma incongruência: se a página tem de ser atrativa
e usável o suficiente para reter o leitor, por que os sites não
mudam o desenho de suas home pages diariamente? E, ainda, por
que os leitores entram primeiramente em um portal e depois seguem
em busca do endereço específico?
O que podemos comprovar é que, como disse Pierre Lévy, "quanto
mais informações, mais equivocados ficam os leitores. Criamos
uma sociedade com uma consciência sem história, sem passado, voltada
para a atemporalidade da 'inteligência artificial'. Vivemos a
sociedade da informação que não informa, apenas absorve grandes
quantidades de dados".
Já acreditei que a evolução das cidades ao longo dos séculos
- desde a Ágora grega, passando pelo surgimento dos feudos, das
cidades fabris, e chegando aos conglomerados urbanos atuais -
se repetiria nas cidades virtuais. Depois dos grandes centros
urbanos, com prédios, moradias, vias expressas e espaços de cultura,
poder e produção recortando o espaço da cidade, seria a vez de
surgir a cidade digital, formada por infovias e outros recursos
da era virtual.
Como se fosse uma anciã nostálgica do passado, tentei desesperadamente
concluir que as profecias otimistas do mundo globalizado, feitas
pelos grandes pensadores do ciberespaço, como Manuel Castells,
Nicholas Negroponte, Esther Dyson e Alvin Toffler, não sairiam
de moda junto com a queda da Nova Economia. Estou convicta, no
entanto, de que muitos ensinamentos positivos foram absorvidos
pelo mercado e os ruins descartados.
A Internet chegou para ficar. Não é uma moda passageira e
não haverá retrocesso. Jamais os usuários de e-mail voltarão a
escrever cartas e deslocar-se até o correio para postá-las. Mas
não podemos esquecer que o comércio eletrônico não decolou de
imediato e que continuou sendo mais confortável assistir ao Grande
Prêmio de Fórmula I na frente da TV, com o balde de pipoca ao
lado, do que tentando enxergar o que se passa no tremido vídeo
que mal consegue chegar à próxima cena.
Como fonte de informação, a Internet precisa levar em conta
a existência de outras mídias. Não posso deixar de citar novamente
a cobertura on-line dos atentados terroristas aos Estados Unidos,
em 2001. A Web - para a maioria dos cidadãos comuns que estava
no trabalho e não contava com um aparelho de TV ao alcance dos
olhos - cumpriu um papel de mídia de massa e deu o seu recado,
com recorde absoluto de acessos no mundo todo.
Os portais horizontais claramente se encaixam nesse modelo
de apogeu da Internet e foram os reis absolutos da WWW entre 1998
e 2000. Mas o modelo de grande diversidade de conteúdo, ofertas
de produtos e interatividade passou a ser repensado. O que podemos
dizer é que sairá vitorioso quem compreender e souber gerir esse
processo de mudança, quem for mais inteligente na disseminação
de conteúdos informativos e na busca de parcerias para a criação
de novas tecnologias e novos produtos. A mídia é nova e está em
mutação, por isso o papel do jornalista na Internet é fundamental.
Criamos uma sociedade que absorve uma informação sem dor,
sem riscos. Uma informação "limpinha", ou seja, que não tem "cheiro",
pistas ou histórico - dificilmente nos portais encontramos aspas
ou entrevistados defendendo uma opinião na Internet. Quando "sobe"
para a Web, a reportagem já veio escrita, reescrita e "consertada"
para aquele padrão de veículo; tudo apresentado em fragmentos,
como em num videoclipe da MTV, bonito, jovem, bem-nascido e sem
compromisso.
Mesmo sendo "usáveis", ou seja, leves no tempo de download
(ver Glossário) e razoavelmente organizados a partir de uma navegação
(que não foi projetada para a Web, mas adaptada dos cadernos dos
jornais como Cultura, Economia, Política, Classificados, Esportes
etc.), os portais são os maiores contribuintes para a formação
desse leitor passivo e acostumado a dar uma olhada em diferentes
janelas, mesmo sem se aprofundar em nada.
A maioria dos sites jornalísticos surgiram como meros reprodutores
do conteúdo publicado em papel. Apenas numa etapa posterior é
que começaram a surgir veículos realmente interativos e personalizados.
O pioneiro foi o norte-americano The Wall Street journal, que
em março de 1995 lançou o Personal journal, veículo entendido
pela mídia como sendo o "primeiro jornal com tiragem de um exemplar".
O princípio básico desse jornal era enviar textos personalizados
a telas de computadores. A escolha do conteúdo e a sua formatação
seriam feitos pelo próprio assinante, conforme suas preferências
de leitura - depois de escolher suas áreas de interesse, ele receberia,
por meio de uma mensagem eletrônica, um portfólio pessoal com
notícias sobre tudo aquilo que escolheu.
Se comparamos a quantidade de leitores da versão impressa
do The Wall Street journal com a dos leitores digitais, comprovamos
que o volume on-line ainda é muito menor, mas a distribuição de
notícias via Web representa uma tendência importante, se levarmos
em conta sua capacidade de segmentar o público leitor. A Web começou,
assim, a moldar produtos editoriais interativos com qualidades
convidativas: custo zero, grande abrangência de temas e personalização. |